Pacientes Borderline e auto-estima : A busca pelo ''buraco da rosquinha
''
Perfeccionismo é uma das características que fazem sofrer as pacientes
que têm Transtorno Borderline.
Altas expectativas,muitas vezes
inatingíveis,pois elas querem ser melhores que 100%,podem se tornar um gatilho
para depressão e crises de invalidação.
Muito difícil lidar com esse
nível de exigência,não importa que o mercado hoje em dia queira pessoas
muito bem preparadas,quem sofre de TPB sempre quer ser 110% ou até mais.
Isto é um dos itens a serem trabalhados com sinceridade com um bom
terapeuta,pois quem não entende o padrão de uma paciente borderline, se
perderá no meio do caminho.
Validar que ter altíssimas expectativas é um traço da personalidade borderline e que o sofrimento é intenso. O terapeuta tem que ler a paciente, ou aprender a fazê-lo.
Nas redes sociais,para termos um exemplo bastante atual,é muito alto o
número de queixas de pacientes que acham que não têm suas fotos
´´curtidas´´´um número aceitável de vezes.
Por ´´aceitável´´,quer dizer,
estar entre as mais curtidas de todo o Facebook,
ou de preferência a
MAIS!
Metas inatingíveis levam essas pacientes a constantes
mudanças em sua aparência.
Tatuagens, cabelos de cores bastante
chamativas, cortes mais radicais, roupas ,enfim,vale tudo para elevar a
auto-estima, dando uma falsa sensação de que estão satisfeitas.
Sim!
Essa sensação é rapidamente subustituída por um pensamento do tipo :´´
Ah, não sei se era isso mesmo que eu queria. ´´
Ou,
´´ será que as pessoas que
gostam de mim tem valor suficiente? ´´
Ou pior. Desvalorizar quem as
valoriza.
Passar a achar quem gosta de você uma porcaria,ajuda ? Nada. Só faz aumentar a desvalorização. Porque se eu desvalorizo quem gosta de mim,então,tenho que ser muito melhor para atingir pessoas que estejam dentro do meu padrão de qualidade.
E que padrão é esse? Inatingivel? Real?
Provavelmente, as pacientes nao vao concordar muito comigo,mas na maioria absoluta das vezes,
é inatingivel e cria metas que levam a desistência,pois se torna tão difícil atingir,que é melhor não tentar mais.
Isso corrobora a questão do auto-boicote como um mecanismo muitas vezes vicioso e difícil de sair.
Acompanhe meu raciocínio:
1-Eu tento ser aceita e me esforço muito.
2-Um número X de pessoas gostam
de mim no Facebook.
3-Eu fico feliz por um tempo Y.
4-Em seguida,esse
sentimento de
felicidade,perde seu valor rapidamente,e dá lugar a um vazio.
O vazio da busca pela próxima ´´conquista´´,vamos dizer.
Mesmo que não
seja uma conquista,mas uma busca por algo que não existe de forma
material e que preencha o vazio deixado por um sentimento crônico de
sentir-se menos no mundo.
E o sentir-se MENOS é de fundamental importância na terapia com uma paciente com TPB.
Este tipo de conteúdo vai aparecer praticamente em todas as sessões,até com pacientes que já estão numa situação bastante melhor e conseguem controlar suas emoções ( porém, NUNCA DEIXARÃO DE PENSAR DE FORMA BORDERLINE).
A grande questão é atingir o controle das emoções, independente dos estímulos aversivos.
Obviamente,não estou me referindo à situações mais graves,como luto, desemprego,separação,enfim,situações que levam qualquer pessoa que não possua transtorno algum a se alterarem bastante, sem dúvida.
Mas, me refiro à situações que são apenas causadas por uma desregulação emocional interna basal,como se refere a autora americana, Marsha Linehan,criadora da Terapia Dialética Comportamental,e uma pessoa que superou seu transtorno,além de se tornar referência nos Estados Unidos.
Estas pequenas coisas, são alimentadas por um processo interno próprio de cada paciente,de acordo com o histórico de vida que cada uma delas teve.
Diagnóstico de Transtorno Borderline se faz com base em biografia, não em sintomas,diz o psiquiatra Erlei Sassi Jr, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo, uma das maiores autoridades em TPB no Brasil,pois estuda o transtorno há 20 anos.
A cada frustração,mínima que seja, porque estas pacientes se estressam por pequenas coisas,que possivelmente passariam despercebidas pela maioria das pessoas. Entretanto,como têm muita sensibilidade, qualquer alteração em seus scripts internos, mentais,psiquícos,é motivo para iniciar uma crise. E a questão pode aumentar e se perder o controle das situações. Na verdade, a coisa mais difícil é aprender a ler uma paciente com TPB,depois que o terapeuta aprende a decifrar aquela paciente,o desafio vai se tornando um pouco menor.
Um pouco,mas sempre um enorme desafio para quem quer tratar pacientes com TPB.
E quando estas pacientes perdem o controle, o que acontece:
O nível de estress se torna muito alto,sendo sempre definido como enorme e insuportável dor,que só quem tem entende.
E não tendo alguem que possa compartilhar sua angústia tao grande, o gatilho está disparado para outros comportamentos.
A saber: àlcool, sexo, drogas,enfim,qualquer coisa que as faça
sentirem-se vivas e deixar para trás a insuportável sensação,ou até
´´certeza´´,de não pertencer a nada,não ser nada,e entrar no triste
mecanismo de auto-comiseração,ou culpar outras pessoas porque não são
como gostariam de ser,então alguém deve ser responsável por esse
sentimento insuportável,e a partir daí, muitas coisas podem acontecer.'
Agressividade contra outros,auto-mutilação,depressão,tentativas de
suicídio.
Tudo isso por não conseguir preencher o buraco existencial que vai se renovando a cada dia.
Próximo texto, relação paciente/terapeuta,como tratar um paciente borderline durante as sessões de terapia,
Monica R. Garcia 13-11-2015
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